Secas são cenários que, a longo prazo, devem fazer o preço da energia disparar

Uma projeção do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indica que os reservatórios das usinas hidrelétricas do País devem atingir 10% da capacidade máxima de armazenamento no segundo semestre de 2021, nível mais crítico desde a crise de 2001. Nesse cenário, surgem diversos questionamentos:  como se dará a reposição dos reservatórios? Quais as consequências? Até onde os preços da energia vão chegar até que os reservatórios sejam enchidos novamente?

Um erro na operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) é a fonte da crise atual. Há anos as mudanças climáticas globais têm provocado alterações nas vazões dos rios responsáveis pela alimentação das usinas hidrelétricas do sistema, o que gerou impacto na capacidade total de geração. Contudo, a avaliação feita pelos encarregados dessa gestão foi de que as secas eram problemas temporários, uma variação natural das vazões em relação às médias históricas. Em resumo, menosprezar os impactos das mudanças climáticas nas vazões dos rios brasileiros foi o principal erro operacional.

O nível de abastecimento dos reservatórios brasileiros se mantém, desde 2014, abaixo do necessário para garantir a segurança energética em um ano de chuvas com nível menor do esperado. Na prática, há anos o sistema opera com patamar insuficiente, de forma que era apenas uma questão de tempo até que um período particularmente seco, como 2021, acontecesse e comprometesse a capacidade de abastecimento durante a seca sazonal.

É cada dia mais evidente que as vazões afluentes no SIN não retornarão ao que eram no século passado. A seca atual não é um episódio pontual, mas uma tendência de longo prazo, com possibilidade real de agravamento nos próximos anos. A falha está em não se chegar a essa conclusão antes e, por consequência, evitar o esvaziamento quase completo dos reservatórios, comprometendo não só a segurança energética do País, mas também o abastecimento urbano e do setor agropecuário.

O fato é que, a despeito do desfecho da situação de 2021, será necessário recompor os reservatórios a seguir. É uma ilusão pensar que a questão será sanada com as chuvas do final do segundo semestre. Para que um nível satisfatório de armazenamento seja atingido novamente, serão necessários vários anos.

A perspectiva é de um aumento na demanda, mas, em contrapartida, deve haver restrição na oferta e elevação nos custos de produção

A reposição dos reservatórios exigirá que um volume menor de água seja utilizado para gerar energia. Com a diminuição da geração hídrica, deve haver uma compensação por meio de outras fontes para que a demanda seja atendida. Para esse fim, podem ser utilizadas fontes eólica ou solar, mas ambas dependem de condições climáticas fora do controle de gestão, como força dos ventos e incidência solar. Já a capacidade nuclear instalada no País está limitada a cerca de 2 GW, seguindo essencialmente o cronograma de manutenção de Angra I e II.

Com a perda de geração hídrica, a produção ficaria a cargo das térmicas. Contudo, o custo para geração termelétrica é bem mais elevado que o da energia gerada em hidrelétricas, e o consumidor paga essa conta.

Outro elemento que torna o problema ainda mais complexo é o fato de que as usinas hidrelétricas dependem do nível adequado no reservatório para que a geração tenha o rendimento esperado. Na prática, turbinar uma vazão de 1m³ /s com os reservatórios vazios gera menos energia elétrica do que turbinar a mesma vazão com os reservatórios cheios. O motivo é que a pressão da água na turbina é menor quando a altura da coluna d’água até a superfície do lago é menor, e essa perda de pressão se traduz em menor geração elétrica para uma mesma vazão turbinada.

Diante da crise atual, os reservatórios devem atingir o volume morto, ou seja, uma perda considerável no rendimento. Entretanto, mesmo com pouca água, o processo de vazão não poderá deixar de ser executado, visto que o SIN não tem capacidade de atendimento da demanda total de energia sem utilizar a fonte hídrica – fonte essa que representa 70% da geração do sistema, de forma que, mesmo quando a água estiver escassa, deverá ser “desperdiçada” na produção de uma eletricidade menos eficiente.

A recomposição dos reservatórios será impactada pelo menor rendimento das hidrelétricas, o que deve encarecer ainda mais a energia por causa da compensação através das térmicas. Não há previsão para que o estado crítico do SIN chegue ao fim, já que a reposição depende do volume de chuvas futuras. No entanto, é bem provável que os reservatórios ainda não estejam recompostos até abril de 2022 (final do período de chuvas). Desta forma, o País deve iniciar o período de seca no ano que vem sem reserva hídrica, comprometendo, assim, a capacidade de fornecimento energético mesmo diante de tarifas em patamar tão elevado quanto o atual.

Na outra ponta, a economia brasileira demonstra sinais de recuperação após o forte impacto causado pela pandemia, o que deve elevar a demanda por energia. Haverá, portanto, um encolhimento da oferta e uma expansão da demanda. O resultado é fácil de prever: disparada nos preços de energia elétrica e aumento nos custos de produção.

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